Kaufman é o titereiro e o diretor Spike Jonze nada mais é que o fantoche nessa obra prima contemporânea, um genial trabalho metalingüístico, que satiriza Hollywood e sua falta de criatividade, mas em momento algum subestima a inteligência do espectador, provando que Kaufman é um respiro de genialidade em tempos que a escassez de idéias domina o Cinema.


Adaptação (Adaptation) – 2002 – EUA

Direção: Spike Jonze
Roteiro: Charlie Kaufman e Donald Kaufman

Charles Chaplin, um dos maiores gênios da Sétima Arte, por boa parte de sua carreira dispensou qualquer script para realizar seus filmes, um argumento era suficiente para o cineasta criar obras primas, que até mesmo hoje permanecem irretocáveis, tanto pelo seu lado humorístico quanto ao seu lado critico.
10 anos após a morte do gênio Chaplin, estreava nos cinemas, um “curioso” filme chamado “Quero ser John Malkovich”. Mas não é sobre esse filme que falarei, e sim sobre o artista genial por trás de John Malkovich (no bom sentido), e que ironicamente tem o mesmo primeiro nome do cineasta já citado anteriormente nessa postagem. Se Chaplin abdicava do direito de um roteiro para seus filmes, Charles Kaufman tem como especialidade escrevê-los, e ambos os artistas de forma bem humorada utilizam a critica como pano de fundo em suas obras, se por um lado Kaufman prefere chutar as canelas dos profissionais de sua área e ou analisar comportamentos sociais. Chaplin ia mais longe e jogava sal nas feridas da sociedade em sua época. De qualquer forma não há porque eu começar essa postagem traçando tais parâmetros, foi apenas uma maneira descolada de iniciar o comentário como todo “critico metido” por ai, mas agora chega de parvoejar e iniciamos a análise do filme em questão.

Quanto ao filme: Charlie Kaufman (Nicolas Cage) precisa de qualquer maneira adaptar para o cinema o romance “The Orchid Thief”, de Susan Orlean (Meryl Streep). O livro conta a história de John Laroche (Chris Cooper), um fornecedor de plantas que clona orquídeas raras para vendê-las a colecionadores. Porém, além das dificuldades naturais da adaptação de um livro em roteiro de cinema, Charlie precisa lidar também com sua baixa auto-estima, sua frustração sexual e ainda Donald, seu irmão gêmeo que vive como um parasita em sua vida e sonha em também se tornar um roteirista.

Os Personagens

Charlie Kaufman/Donald Kaufman (Nicolas Cage): Como citado na sinopse, Kaufman não é só o maestro do filme, como também o protagonista, mas em seu personagem nada encontramos de narcisismo, pelo contrário denigre sua própria imagem repetindo por diversas vezes durante o filme como sendo “um gordo, careca e patético”. Charlie é um sujeito anti-social pessimista e paranóico, apesar de criativo, criativo até demais para sua profissão. Seu irmão representa a antítese de sua pessoa, nada criativo, se relaciona fácil com as pessoas, bem humorado, e tem vida sexual ativa. Ambos os personagens são interpretados por Cage, apesar de já ter ganho Oscar a critica esnobe ainda tem certo receio do seu trabalho, o ator aqui representa muito bem Charlie Kaufman e Donald Kaufman, esse segundo na verdade não passa de uma invenção do roteirista (uma grande sacada das premiações como Globo de Ouro e Oscar, indicaram os supostos irmãos nas categorias de melhor Roteiro)

Susan Orlean (Mery Streep): é a escritora do New York, tem uma vida aparentemente feliz, um círculo de amigos intelectuais com quem pode discutir as situações que tivera de passar com John Laroche. Acredito que não seja necessário dizer o quanto Meryl Streep atua bem, não é mesmo? Tanto que ganhou o Globo de Ouro pela sua atuação. O curioso é que seu personagem é algo totalmente distinto de qualquer outro trabalho que atriz tenha em sua filmografia, portanto ela só prova ainda mais sua versatilidade.


John Laroche (Chris Cooper)
: Laroche por sua vez é um sujeito sem dentes, egocêntrico, preguiçoso demais para ler um livro, mas curioso o suficiente para escutá-los, segue sua própria ideologia, sem aceitar que outros entendam mais que ele em qualquer assunto, ele é a chave para o desenvolvimento da trama, quem impulsiona a condução narrativa a todo momento, com suas frases geniais, ou somente sua presença em cena, Kaufman consegue despejar neste personagem toda a sua genialidade, desde sua aparência até seus princípios autodidatas, somado com a bela interpretação de Chris Cooper vencedor do Oscar pela sua atuação, premio mais do merecido.

ANÁLISE: Desde seu primeiro trabalho, Charles Kaufman já mostrava a que veio, mas foi em “Adaptação”, onde inclusive repetiu a parceria com Spike Jonze, mesmo diretor de “Quero ser John Malkovich”, que Kaufman confirmou que não era apenas mais um roteirista medíocre do Novo cinema acéfalo de Hollywood.
Agora, deixando qualquer saudosismo de lado, há de se destacar o trabalho técnico, e também a ótima direção de Jonze, seu maior mérito é por parte da direção de atores, todos estão muito bem, ao começar pela seleção do elenco que não poderia ser mais feliz. Apesar de ser um trabalho modesto e mais contido do que ele apresentaria futuramente – como em seu ultimo (ÓTIMO) filme, “Onde Vivem os Monstros” – , Jonze não deixa de ser ousado em certos momentos, diferente da timidez apresentada em “Quero ser John Malkovich”, aqui ele já arrisca mais, conseguindo as doses de experimentalismo necessárias que o roteiro exige, ou sugere. Mas fato é que, Jonze sabe exatamente seu lugar, que neste caso é apenas ilustrar a obra de Kaufman(ok, um pouquinho de saudosismo).

A montagem seguindo uma narrativa não linear é bastante interessante, nenhuma sequencia é desnecessária, desde as mais curtas como o acidente de Laroche (uma das melhores cenas do filme, na minha humilde opinião) até as mais longas e ou absurdas (como a origem da vida humana etc.), tudo é meramente calculado e dita um ritmo dinâmico ao filme, apesar do mesmo não conter cenas movimentada, a não ser seu desfecho, é claro, que falarei daqui a pouco.

Outro ponto interessante, é o fato de Kaufman fazer sua critica ao apelo comercial e a falta de criatividade da industria cinematográfica (levantem-se todos e aplaudam esse roteirista nada mais é que mãe Dinah dos cineastas, ele previu essa decadência de ideias que Hollywood viveria, e cá estamos nós hoje em dia idolatrando um revolucionário filme que nada mais é que um clichê ambulante, protagonizado por criaturas azuis…) e durante o filme enquanto o personagem de Donald tenta seguir a carreira do irmão é interessante notar que durante a brincadeira de Kaufman, ele destrói varias possibilidades de roteiros que poderiam ser criados (um assassino que mata as pessoas aos poucos, cortando pedacinho a pedacinho? Caramba isso seria disputado a unhas pelos estúdios hoje em dia).

Agora quanto ao desfecho, o que falar sobre o final absurdamente brega, piegas e… inverossímil. Kaufman constrói um clímax absurdo, a primeira vista pode-se considerá-lo totalmente deslocado, mas depois de um tempo percebe-se que nada que o roteirista escreve é por acaso, e mais uma vez ele brinca com o espectador, mas no fundo sabemos que aquilo tudo não é clichê, é pura genialidade, sabemos porque tudo que nos foi mostrado anteriormente é a prova viva que o cinema pode brincar com estereótipos, clichês, e metalinguagem, com uma genialidade absurda, e sem chamar seu espectador de ignorante.

Nota: 10 (Excelente)

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